A quinta sessão do Seminário teve como diferencial a presença de duas importantes artistas contemporâneas brasileiras, Rosângela Rennó e Leila Danziger, e do professor da UNICAMP, Márcio Seligmann-Silva, também ensaísta e crítico cultural. O tema das itinerâncias esteve presente na fala das artistas sobre seus respectivos trabalhos, e do professor que estabeleceu comentários sobre as obras usando como linha teórica os pensamentos de Walter Benjamin e Vilém Flusser.
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A primeira a falar foi Rosângela Rennó que trouxe cinco dos seus trabalhos para comentar o assunto das itinerâncias. A artista começou a conversa comentando que já há algum tempo foi definida por alguns críticos como “a fotógrafa que não fotografa”; diz ter abandonado o gesto fotográfico, mas que essa recusa não impediu o aumento do seu campo de ação, que se mostra de forma frequentemente instalativa, onde a fotografia aparece ativando o espaço, ao passo que este também faz parte da obra. Rennó interessa-se pelas especificidades da imagem e de como essa se relaciona com diversos suportes em diferentes “ciclos de vida”, mais ou menos duráveis. Para ela, a foto desprovida de caráter estético tem importância em seu trabalho que compreende a imagem como objeto possível de ser guardado ou abandonado. A artista diz não pertencer ao campo da fotografia digital, que segundo ela “já parece nascer sem memória”.
A primeira obra apresentada por Rosângela Rennó foi “Bibliotheca” (2002), que circunda os conceitos de arquivo, museu e biblioteca. A instalação consiste em 37 vitrines contendo álbuns antigos de fotografia, um mapa para a localização da procedência de tais objetos, além de um sistema de fichas que permite o observador saber mais informações sobre as fotos ali presentes e as diásporas das mesmas. Essa pesquisa de conteúdo se dá a partir de diferentes cores, que identificam a origem e destino das fotografias e álbuns. Há ainda um livro-objeto denominado Bibliotheca, com a reprodução de centenas de imagens selecionadas nos álbuns fotográficos adquiridos em diferentes países.
O segundo projeto apresentado por Rosângela Rennó foi “A última foto” (2006), no qual a artista convidou alguns fotógrafos para fazer uma imagem do Cristo Redentor. Estas foram as últimas imagens de cada máquina fotográfica, que em seguida foram lacradas, constituindo 43 dípticos com as respectivas fotos no conjunto da obra. Nesse projeto foram colocadas questões relativas à morte da fotografia analógica, o direito do uso de imagem, já que o Cristo Redentor é um monumento privado vinculado à arquidiocese do Rio de Janeiro, e também sobre o problema da autoria, que neste caso é dividida entre Rosângela Rennó, como a autora da obra, e os autores das fotografias.
A terceira obra de Rennó foi o livro de artista intitulado “510117385” (2005). O projeto surgiu após o furto de diversas fotografias do arquivo da Biblioteca Nacional que pertenciam à coleção Teresa Cristina Maria, no departamento de iconografia. Algumas fotos foram devolvidas entre 2006 e 2009, contudo, os criminosos não foram capturados. Rennó produziu um livro de artista no qual foram publicados o inquérito policial do crime e os versos de cada uma das 101 fotos recuperadas ordenadas pela data de volta ao acervo. O livro discute o furto ocorrido, o ato de vandalismo sobre o patrimônio cultural, a amnésia histórica e a impunidade do crime.
O quarto projeto apresentado por Rosângela Rennó foi “Carrazeda + Cariri” (2008-2009) realizado em parceria com fotopintores de Juazeiro do Norte e Fortaleza, no estado do Ceará. Os retratos usados são de homens residentes do pequeno povoado português Carrazeda, coletadas em sites de relacionamento na internet. A tradição da fotopintura, marcada pelo retoque colorido feito geralmente em pastel seco, é restabelecida na obra ao apresentar 5 séries com os mesmos retratos dos homens de Carrazeda, sendo pintados por mãos de diferentes artistas, como o conhecido Mestre Júlio.
A última obra mostrada por Rennó foi a “Menos Valia (leilão)” exposta em 2010 na Bienal de São Paulo. É constituída por 74 objetos fotográficos encontrados em diversas feiras e mercados de pulga no mundo todo. Com uma entrada no “recuperacionismo ativo de transformação”, prática vinculada à ruinologia, todos estes objetos vieram acompanhados de uma etiqueta que indicava o lugar onde foram adquiridos, o que procurou agregar valor simbólico às peças. Negativos, fotografias, estereoscópios, lanternas mágicas, câmeras, entre outros, foram expostos e leiloados durante a Bienal. Cada comprador ganhou um certificado de propriedade do projeto, o que procurou questionar o próprio valor de uma obra de arte.
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Depois da fala de Rennó, foi a vez da artista visual e professora do Instituto de Artes da UERJ, Leila Danziger, que começou mostrando uma imagem da desmontagem de uma exposição sua no Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Leila trabalha com o jornal impresso, apagando boa parte das informações nas páginas e deixando apenas o que considera pertinente dentro do projeto de cada série, debatendo assim a ação da leitura desta mídia informativa e seus respectivos ruídos; o que pode permanecer e o que se esvai diante da imensidão de textos que se acumulam a cada dia. O amontoado de fitas de jornais cortados presente na fotografia exibida ao público aborda a efemeridade do meio.
No work in progress “Pallaksch, Pallaksch”, Leila Danziger procura os murmúrios que ainda escapam das folhas dos jornais como pequenos poemas. A palavra Pallaksch vem de um poema do alemão Paul Celan e significa ao mesmo tempo sim e não. Segundo a artista, este poema circunda seu trabalho como o próprio ato de gaguejar ao qual se refere Celan. Leila utiliza um trecho do poema em duas traduções, uma que diz “para-ninguém-nada-estar”, e em outra “resistir-por-ninguém-e-por-nada”; para ela, as imagens pedem a tradução mais conveniente.
(…)
Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo; hoje, com
a barba de luz dos patriarcas: falasse
se falasse ele deste tempo
poderia apenas gaguejar e gaguejar
sempre-e-sempre.
(Paul Celan)

Para apagar as folhas, Leila realiza uma espécie de “depilação do jornal”, retirando com fita adesiva a primeira camada de tinta. Esta ação pode deteriorar a folha e deixar vestígios da impressão, que para ela são como pinturas feitas com os restos de imagens. A artista também utiliza na composição estética carimbos com frases ou imagens, além de máscaras feitas sobre as folhas para serem submetidas à exposição ao Sol, o que gera uma “impressão solar”. Em outros casos, Danziger apaga as palavras do jornal e deixa apenas as imagens em diferentes séries, fotografias dramáticas que aparecem como “pequenas catástrofes”, sejam elas situações de abandono na cidade, crianças em situação de risco ou de falta de água.
Uma outra série apresentada pela artista foi “Vanitas”, em referência a este estilo de natureza morta contemporânea à contra-reforma da igreja católica. Nesta obra, Danziger trabalha o tema da melancolia no contraste entre a vida e a morte, e na evidência de que os valores sociais são efêmeros. Outro exemplo citado foi de uma instalação realizada na UERJ, onde a artista conseguiu se apropriar de uma banca de jornal, tendo inclusive a rotina de abrir e fechar o estabelecimento. Nesta obra, Leila expôs jornais em que eram apagados o que há de mais descartável em suas folhas: os anúncios.
Danziger também comentou o período de seis meses que passou em Israel neste ano, trabalhando com jornais daquele país. Comentou que achou a imprensa de Tel Aviv muito rica e diversificada, sendo assim mais difícil de tomar a decisão do que deveria permanecer e do que deveria ser apagado, ao contrário da imprensa brasileira que segundo ela, em sua grande parte, “o jornal não serve nem para ser apagado”. Disse também que teve receio de causar reações a certos grupos devido ao contexto político da região.
No final de sua palestra foram exibidos três pequenos vídeos que mostram a técnica utilizada para apagar os jornais em uma linguagem poética que mistura diferentes sons às imagens de execução do trabalho. O som da folha “depilada” por uma fita adesiva realça o ruído daquelas imagens e textos mortos, enquanto a mão da artista aparece agindo sobre tal material, ressaltando o que merece ficar e o que deve ser apagado/esquecido, ou ainda o que eventualmente é rasgado na violência contra o papel.
Em um deles pode-se ouvir o pronunciar de diversas informações jornalísticas sobrepostas pela repetição da palavra Pallaksch, que ressalta pelo ruído esta afirmação e negação simultânea. No vídeo sobre a obra Vanitas, aparecem imagens de caveiras e de um túmulo onde um jornal largado se arrasta com o vento. Os áudios trazem vozes múltiplas que falam informações consideradas de grande importância, mas que foram esquecidas com o tempo. Tornaram-se apenas murmúrios na memória da sociedade.
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O professor Márcio Seligmann-Silva foi o último a falar, pautando sua apresentação em ideias construídas a partir das exposições das duas artistas e levantou questões para se pensar a fotografia como apagamento da imagem. Utilizou conceitos de Walter Benjamin, especialmente a ideia de aura e a distinção estabelecida entre cópia e original, e de Flusser, ao tratar da passagem do mundo histórico, impregnado pela técnica da escrita, ao mundo das imagens técnicas que aparecem para “libertar o império do conceitual” em um nível de consciência “pós-histórico”. Reforçando o pensamento de Flusser, Márcio afirmou que as imagens técnicas são vistas como um “tempo fora do tempo”, em uma não-história, diferentemente das imagens tradicionais. A partir daí, o professor fez uma relação com a obra de Freud, Mal estar da civilização, para falar da crise do sujeito diante de um boom de imagens. O palestrante observou que as duas palestrantes manifestam bem este mal-estar em suas obras.
Sobre a obra de Rosângela Rennó, o palestrante falou de como a itinerância aparece no trabalho com o arquivo, neste caso marcado pela ironia com a taxionomia na discussão de uma cultura da memória e ao mesmo tempo uma constante cegueira das imagens. O aparecimento e desaparecimento da imagem é recorrente, como também no caso do furto que impulsionou “A última foto”, ou na recuperação da antiga prática das fotopinturas usadas em “Carrazeda+Cariri”, que levou a artista a uma certa “arqueologia da fotografia” em contraposição à sua presença digital em rede. Uma sociedade antiga e técnicas definhando reaparecem nas expressões singularizadas destes homens de um pequeno povoado de Portugal à procura de casamentos. Márcio lembra do fotógrafo Atget, que no verso das fotografias de Paris costumava escrever “va disparaitre”, vai desaparecer.
Márcio Seligmann-Silva também apresentou imagens que dialogavam com essas questões apresentadas. Uma delas era foto de um protesto de fotógrafos no Chile durante a ditadura que se tornaram, segundo o pesquisador, homens-fotos. Em outra foto, de 1979, aparecia uma mulher que tinha apenas uma foto de cada um seus familiares, todos perdidos durante a ditadura. Eram quatro filhos e um marido, nenhum possuía documentos, “existiam” somente naquelas fotografias. Citou ainda as quatro únicas fotografias que mostram a ação em campos de concentração nazistas.
Seligmann-Silva finalizou sua apresentação citando Flusser, que diz que o jornal é a única mídia feita para jogar-se fora. Para ele, Leila Danziger demonstra em seus trabalhos uma forma de contra-leitura dos jornais, ressignificando o meio, retirando de suas páginas as palavras e deixando as imagens. Ele compara este ato ao de Penélope, personagem da mitologia grega que desfaz secretamente à noite o trabalho tecido durante o dia. Márcio comenta que o próprio verbo utilizado por Leila – depilar – parece ressaltar este gesto feminino que se opõe ao império do discurso masculino.
Jane Maciel e Gabriel Barata



























