O primeiro dia do Seminário Linguagens Itinerantes da Fotografia contou com a palestra do professor da Universidade de Princeton, Eduardo Cadava, que é um dos membros do comitê científico do seminário. O palestrante percorreu o texto do fotógrafo francês Félix Nadar, “Quand j’étais photographe”, publicado em 1900 e sem tradução em português. Composto de 14 vinhetas, o texto fala de uma “photographopolis”, expressão usada pelo fotógrafo tanto para a cidade de Paris, capital da fotografia no século XIX, quanto para um nascente mundo fotográfico de cópias, repetições e simulacros.
O professor falou de Félix Nadar como um pensador da primeira fotografia, complementar à figura de famoso fotógrafo retratista, caricaturista e personalidade popular na Paris moderna. O curioso texto das memórias de Nadar, uma performática e alegórica autobiografia, fala da história da fotografia e de suas invenções sem utilizar fotos propriamente ditas. Ao contrário, o fotógrafo constrói “instantâneos em prosa” para falar da fotografia vivenciada em seu tempo.
Félix Nadar inicia suas memórias referindo-se a uma teoria de Balzac, que compreende que todos os seres da natureza possuem camadas de espectros fantasmagóricos que os definem e constituem, e que a cada foto clicada uma dessas camadas é capturada do corpo e colocada na fotografia. Partindo dessa compreensão, Cadava fala da multiplicidade das imagens apresentada no rosto humano, que segundo ele mostra-se como um arquivo de relações que são estratificadas no retrato fotográfico em suas diversas temporalidades. Um exemplo citado pelo professor foi a famosa série de autorretratos de Nadar em que ele aparece em cada pose girando ao redor do seu eixo, enfatizando a repetição de um eu múltiplo.
Cadava ressalta que nas memórias de Nadar a alegoria aparece diversas vezes, como na passagem em que o fotógrafo discute com um jovem sobre a possibilidade de se tirar fotos em grande distância de coisas que ele não pode ver, como uma fotografia tirada de Montmartre que pudesse alcançar a cidade de Deuil, que na realidade não existe, confirmando assim o caráter alegórico no emprego desta palavra que traduzida significa luto. Esta visualidade que está na fronteira do visto e do não visto aparece no texto também pelo ambiente dessa conversa, que se dá no momento do crepúsculo, fronteira entre o dia e a noite.
Em outra vinheta intitulada de “fotografia homicida”, o fotógrafo conta o caso de um assassinato protagonizado por um farmacêutico (que segundo Cadava aproxima-se de alguma forma do ofício laboratorista do fotógrafo manipulador de químicos) cuja a circulação de fotografias do crime teve repercussões sensacionalistas no crescente jornalismo moderno. Cadava fez aproximações com outra imagem de um cadáver, discutindo as violências embutidas nessas imagens e a partir delas, fazendo também relações entre a fotografia e a morte.
Esta relação repete-se na última vinheta citada que traz a experiência do fotógrafo no subterrâneo de Paris. As fotografias realizadas nas catacumbas faziam parte dos experimentos pioneiros de Nadar com a iluminação artificial; devido à ausência de luz, ele utilizou manequins representando trabalhadores em algumas imagens. Eduardo Cadava comenta essas imagens ressaltando o aspecto sombrio desta “necrópolis”, repleta de crânios que sugerem máscaras do teatro e manequins que funcionam como dublês, aquilo que pode ser mais de um.
A Paris de Nadar é sempre duplicada. No outro oposto das fotos feitas no subsolo da cidade, Nadar também explora o mapeamento da cidade por uma visão aérea marcada pela infinitude. Tais fotos feitas a partir de um balão (Le Géant/ O Gigante) mostravam uma Paris em transformação pelas reformas urbanísticas implementadas por Haussmann, também debatida por Charles Baudelaire e Walter Benjamin. Entre a memória de uma cidade que não existe mais, ou das imagens que em breve se apagarão, Cadava vê no fotógrafo uma grande preocupação em preservar pela fotografia o que está fadado a passar, em uma atitude saudosista e de luto que se preocupa em conservar o passado, deter o tempo que encaminha tudo de alguma maneira à morte. Para Eduardo Cadava, Paris é a própria alegoria da obra de Nadar marcada pela itinerância que liga a vida e a morte.
Cadava acentuou que um dos interesses dele no momento com esta pesquisa é que a fotografia aparece sempre junto com outras linguagens. Neste caso de Nadar, ele sublinhou o caráter perfomático de seu texto autobiográfico, levado pouco em conta pelos estudiosos até então. Comentou que Nadar escreveu em seções que estabelece interrupções na escrita, de alguma forma similar à fotografia que sempre aparece como interrupção. Assim, cada fotografia sempre fala de morte e de vida. “Nadar mostra uma Paris em transformação e a fotografia surge como forma de luto onde tudo e as pessoas estão destinadas a morrer, a não existir”, afirma Eduardo, que acrescenta “a ênfase da minha idéia de fotografia é na morte, mas a apresentação é uma encenação”.
Mariana Bria e Jane Maciel

