05
nov
11

Maria Gough aborda a produção do fotógrafo Gustav Klutsis

© André Telles

A professora de Arte Moderna na Universidade de Harvard, Maria Gough, trouxe uma importante palestra baseada na sua pesquisa sobre o fotógrafo Gustav Klutsis, nascido na Letônia e que viveu na Moscou soviética do começo do século XX. A pesquisadora escreve atualmente um livro sobre a obra deste fotógrafo a partir das pesquisas realizadas nos Estados Unidos, nas análises de cadernos de literatura e arte em museus em Moscou e Amsterdam (estes provenientes de um importante colecionador russo que migrou para a Holanda), além de arquivos do Museu de Artes de Riga, capital da Letônia.

Klutsis atuou artística e politicamente na União Soviética junto aos movimentos de vanguarda dos anos 20 e 30, sendo próximo de artistas como Alexander Rodchenko. Contudo, Maria Gough busca diferenciá-lo dos construtivistas, dando ênfase à eficácia agitacional da fotografia na sua obra, que sempre esteve organizada na confluência com outros meios. Afirma que o trabalho de Klutsis não se limitou ao quarto escuro, mas também abrangeu a bancada de trabalho, uma vez que o artista uniu a fotografia ao trabalho manual realizado por meio de sua junção a materiais não fotográficos, como papéis coloridos e pigmentos; até maquetes faziam parte do seu processo artísticos.

Na concepção de Gough, Gustav Klutsis praticamente considerava-se o predecessor e criador do conceito de fotomontagem como expressão artística e política. Neste sentido, a professora fala que existe uma alternância entre um movimento centrípeto, através de uma mudança de padrão interna no sentido de migração da fotografia para a fotomontagem, e também centrífugo, no movimento externo que transforma a foto como mídia exclusiva em um produto conhecido pelas massas, através da expansão de seu potencial comunicacional em revistas e mesmo na arquitetura; a fotomontagem foi levada para os outdoors, cartazes e faixas em grandes tiragens que eram distribuídas em diferentes espaços públicos. É através do modelo de pôster de fotomontagem desenvolvido Klutsis a partir da década de 30 que o uso político e agitacional da fotografia é ampliado, sendo este ideal para a apropriação pela vanguarda esquerdista.

Klutsis participou ativamente do Primeiro Plano Quinquenal soviético, modelo de luta de classes e revolução cultural que buscava formar uma nova inteligência proletária. O artista aponta a importância da fotografia dentro desse contexto político e afirmando que “com seus métodos ultrapassados, as formas antigas de belas artes são insuficientes para atender as necessidades da revolução”. Assim, Klutsis mostra que a fotografia por sua precisão factual é superior às outras formas de arte que nunca representarão exatamente o que se passou.

Por outro lado, Klutsis enfatizava que o grande trunfo da fotografia estava nas suas possíveis intervenções, uma vez que a fixação perfeita da imagem não representava fielmente a dinâmica da vida, papel que seria exercido pela fotomontagem ao aliar elementos como escalas, cores e desenhos.  A palestrante afirma que o artista nunca acolheu integralmente a fotografia em si, no seu caráter documental, uma vez que o próprio afirmava ser a fotografia “morta, inerte, nula e vazia”.

As análises de cadernos de esboços do artista enfatizavam o uso da cor associado à imagem em planos composicionais, em experimentações formalistas marcadas por bordas retangulares, perspectivas aéreas e uso de tipografias e outros elementos gráficos. Tais esboços demonstram que suas montagens não se tratavam de um relato neutro, evidenciando a hibridez dos procedimentos de trabalho do artista em prol da luta de classes. Outra vertente importante da obra de Klutsis foram os trabalhos realizados em periódicos socialistas, momento em que o assunto das imagens começa afetar as formas dos projetos.

Maria ressalta a importância da quarta fase do trabalho de Klutsis, que vai de 1925 a 1928, marcada pela variedade de formatos, elementos heterogêneos na construção de temas políticos e pelo advento da fotomontagem de cartaz, usada para a propaganda comunista. A palestrante exemplifica esse tipo de montagem com cartazes como “Let’s return the cool debt to the country”, de 1930 e chama atenção para a dramática redução de detalhes na arte de Klutsis, em uma busca pela simplicidade e uniformidade.

Outro exemplo comentado pela professora foi o de uma montagem no formato panorâmico que evidencia uma mitologia comunista que vai de Marx a Stalin, mostrando menos a luta de classes e valorizando mais a hierarquia política ao enaltecer tais figuras históricas do socialismo. Também nessa fase o artista explora fortemente seu material fotográfico, o que Gough afirma ser raro na produção do mesmo e supõe ser resultado de um período de experimentação no quarto escuro.

A pesquisadora de Harvad também cita a fase em que foi utilizado predominantemente o cartaz de cavalete, o que gerou fortes alterações no trabalho de Klutsis, por elementos como desenhos e reutilização de outros trabalhos criados anteriormente. Diz que esses pôsteres com vinhetas e desenhos a mão mostram um tipo de caricatura que foi desenvolvida na época e ilustra o retorno do artista ao desenho e à pintura.

A palestrante afirma que, no final de sua vida, Gustav Klutsis tendeu à pintura como expressão artístico-política principal, como se quisesse apagar a mecanicidade da câmera. Tentando se reposicionar como pintor, Klutsis afirma que seu trabalho deveria ser uma perspectiva do amanhã e não uma mera reflexão passiva da atualidade. No pôster de 1935, “Glory to the red army of workers and peasants”, ao invés de uma fotografia, aparece um desenho de Stalin. Em 1938, Klutsis, que era chefe adjunto do setor de cartaz do Sindicato dos Artistas Criadores, acaba sendo detido e assassinado por pressões políticas adversas à sua origem estrangeira.

Laís Pinheiro e Jane Maciel

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